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sábado, 6 de dezembro de 2014

A Lua em Trovas

Eterna musa dos poetas, ela está sempre presente em seus versos, provocando, com seu fascínio, um impulso irresistível de expressar sentimentos profundos que vão da depressão ao êxtase.
Não conheço poeta que não haja se rendido aos seus encantos.
Não conheço poeta que, olhando para ela, consiga enxergar apenas um astro inanimado...
Não conheço poeta que não tenha com ela um caso de amor.
Quem pode explicar a magia da lua e a influência que ela exerce no estro de um poeta apaixonado?
E por que explicar? Melhor se deleitar com as joias poéticas que ela inspira.
Busquemos pois vivenciar as emoções do poeta ao compor versos primorosos, inspirados por sua musa preferida.

Muitos poetas tentaram definir a lua, ou estabelecer semelhanças com objetos do seu desejo. Senão, vejamos:
Domingos Freire Cardoso, o grande poeta português, compara a lua à mulher ideal que se deseja e não se pode ter:

A lua, eterna viajante
dos espaços siderais,
é mulher, bela e distante,
que não se alcança jamais.

Essa imagem da lua-mulher também inspirou Licínio Antônio de Andrade, de Juiz de Fora MG, nesta linda trova:

Qual bela noiva charmosa
tendo estrelas como véu,
desfila a lua garbosa
na passarela do céu.

Carlos Pinto, de Santa Luzia MG, lamentou a semelhança da mulher esquiva com a lua em sua fase mais esplendorosa:

Minha alma não mais anseia
por tuas suavidades, 
Lua branca - lua cheia - 
Lua cheia - de saudades!

Se a lua tem uma sósia humana, essa sem dúvida é a Maria Lua. Ninguém se identifica tanto com ela quanto a poetisa de Nova Friburgo RJ, que assim define sua equivalente celeste:

Senhora de mil caminhos
e das saudades secretas,
a Lua é o Sol dos sozinhos...
dos amantes... dos poetas...

Há tanta comunhão entre trova e lua, que se a lua fosse um poema com certeza seria uma trova.
SERIA? Não! Na visão do grande J. G. de Araújo Jorge, do Rio de Janeiro, a lua É uma trova:

Tudo é trova: a flor, a onda,
a nuvem que passa ao léu...
E a lua... trova redonda
que a noite canta no céu...

No aconchego dos amantes, o enlevo que os envolve irradia tanta luz que, se comparado à mudança de fases da lua, há que se acelerar o processo, porque o amor tem pressa. 
Foi o que Neide Rocha Portugal, de Bandeirantes PR, sentiu, ao se expressar nesta trova:

O rancho se faz gigante,
pois quando o amor o incendeia,
o nosso quarto, minguante,
tem clarão de lua cheia!

Para alguns, a afinidade é tanta que chegam a pensar que podem mesmo tocar a lua.
Vanda Fagundes Queiroz, de Curitiba, bem que tentou:

Olhando do meu terraço
o céu que ilumina a rua,
com enlevo um gesto eu faço,
e quase que abraço a lua!

Outros acreditam ter privilégios especiais. Puxando a brasa pra sua sardinha, Edmar Japiassú Maia, do Rio de Janeiro, vangloriou-se neste belo jogo de palavras:

Talvez porque a noite esconda
sombras de amor...é que a Lua
põe mais luz em sua ronda,
quando ronda a minha rua!

Assim como Edmar, todos os poetas têm ou tiveram a sua rua... E que criança não teve um dia a certeza de que a lua a estava seguindo, ao caminhar pela rua? Pedro Ornellas, de São Paulo, descreve essa sensação de grandeza criada pelas fantasias de menino:

Volto e vejo a mesma lua,
na mesma rua, lembrando:
eu correndo pela rua...
e a lua me acompanhando!

O papel da lua, como testemunha que, lá do alto, tudo vê é muitas vezes lembrado pelos poetas, que quase chegam a culpá-la de ser indiferente aos seus infortúnios. Campos Sales, de São Paulo, lamenta:

Ah, lua cheia, vadia,
que, noite adentro, clareia
minha vida tão vazia
mas de saudades tão cheia!

Wanda de Paula Mourthé, a Wandinha, de Belo Horizonte, tem uma queixa bem parecida:

Olho a rua... a noite avança,
tudo adormece ao luar...
Dorme até minha esperança,
que cansou de te esperar!

A mera presença da lua é o bastante para despertar em Rita Mourão, de Ribeirão Preto SP, sentimentos assim:

Quando esta lua indiscreta,
me traz lembranças sem fim
eu choro o velho poeta
que morreu dentro de mim.

O brilho da lua é de tal forma deslumbrante que, no sertão, se sobrepõe a qualquer outra fonte de luz.
Estaria ela se exibindo, envaidecida, ao roubar o brilho de um pequeno inseto luminoso?
Ademar Macedo, do RN, se não disse, ao menos sugeriu isso na trova:

A Lua tão linda e terna,
no meu sertão, por ciúme,
acende a sua lanterna
e apaga a do vaga-lume.

A lua já foi até mesmo apontada como mau exemplo por não ter luz própria, e por ninguém menos que o magnífico trovador João Freire Filho, do Rio de Janeiro:

Que importa não seja sua
a luz de que a Lua é cheia?!...
Quanta gente, igual à Lua,
só vive da luz alheia?!...

Mas imediatamente, João Freire reverte o quadro, ao fazer a ressalva:

A lua, que nos clareia,
é diferente de quem,
recebendo luz alheia,
não ilumina ninguém!

A lua distribui a luz que recebe. Assim fica resgatado seu caráter generoso. Nessa linha, Roberto Resende Vilela, de Pouso Alegre MG, destaca a generosidade da fonte da luz que a lua irradia:

Generoso, o sol se presta
de instrumento de partilha,
quando para a lua empresta
toda a luz com que ela brilha.

Assim como a lua, usada pelo Grandioso Criador como espelho para refletir a luz do sol em nosso benefício, e como um espelho d’água que reflete a lua para nosso deleite, podemos nos alegrar de ser instrumentos para o bem.  Assim se sente Pedro Ornellas:

Se ajudo alguém na tormenta
é o poder de Deus que atua
e faz que a poça barrenta
reflita o brilho da lua!

Com sua mania de humanizar a lua, o poeta chega a sugerir que ela tem algo de ruim a esconder. Hegel Pontes, de Minas Gerais, usa esse suposto lado negro, para aconselhar o filho:

Não julgues pelo semblante
A honra alheia, meu filho:
- Na lua, a face brilhante
Oculta a face sem brilho.

Mas há quem prefira se concentrar em atitudes gentís. O poeta enxerga coisas ocultas aos olhos dos meros mortais. Aurolina de Castro, do Maranhão, acredita que a lua controla com cuidado a intensidade de seus raios.
E por que faz isso? Ela explica:

O brilho da lua cheia
cai suave nos caminhos,
dando a impressão que receia
acordar os passarinhos.

E se a lua tem sentimentos, teria também bom humor? Vasques Filho, do Piauí, acha que sim:

Pelo espaço, onde flutua,
nas noites claras de estio,
a lua ri de outra lua
que faz caretas no rio.

Não há como negar a influência da lua na disposição de espírito dos humanos. A simples contemplação de sua beleza pode confortar a alma dos desvalidos, como sugere Campos Sales:

Um céu de estrelas se acende
e o menino espia a lua,
do seu berço que se estende
de ponta a ponta da rua!

Para apreciar melhor algo belo, você precisa olhar de perto, não é assim? Nem sempre!
Nei Garcez, de Curitiba, faz essa interessante observação:

O astronauta que flutua
muito tem a lamentar:
quanto mais perto da lua
mais distante do luar.

Maria Lua concorda que, em se tratando do luar, ver de longe é melhor, ao relembrar coisas boas do passado:

Da tapera, me encantava
o luar, visto à distância...
E o riacho murmurava
cantigas da minha infância!

Assim é o poeta em sua relação encantada com a lua. Poeta, cujo papel foi cantado por Humberto Del Maestro:

Poeta tem as mãos cheias,
carrega o sol, leva a lua;
arrasta mágoas alheias
e ri quando a dor é sua.

Finalmente, há imagens tão sublimes estampadas em trovas, que se comentadas fossem correr-se-ia o risco de ofuscar o seu brilho. Melhor ler e se encantar com trovas desse quilate:

Na lua existe um moinho
que leva a noite a girar,
moendo o trigo branquinho
com que Deus faz o luar!...
(Archimino Lapagesse  - Florianópolis SC)

Quando a jangada flutua
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua
nos olhos verdes do mar.
(José Lucas de Barros – Natal RN)

Tão linda era a luz, na rua,
que um ébrio tentou bebê-la...
mas tropeçou numa lua
e caiu sobre uma estrela!
(José Ouverney – Pindamonhangaba SP)

É inverno... choveu na mata...
e a lua, deusa sem fama,
penteia as tranças de prata
pelos espelhos de lama.
(Manoel Cavalcante - Pau dos Ferros – RN)

Lembro o sertão, seu encanto,
a luz cheia, tão minha...
Sem ter nada tinha tanto
naquele nada que eu tinha!
(Campos Sales – São Paulo)

Encerrando, destaco como símbolo do encanto da lua sobre o poeta essa trova que me encanta:

Em meus sonhos de criança,
desejei pescar a lua
e pus anzóis de esperança
nas poças d’água da rua!

(Delcy Canalles – Porto Alegre RS)

3 comentários:

  1. Bela seleta, Poeta. A eterna Selene sempre será a grande musa dos artistas. Parabéns!

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  2. Uma peque na correção, creio que você se equivocou: Aurolina Araújo de Castro era do Amazonas e não do Maranhão.

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    1. Obrigado pela correção. Fica registrado para os leitores.

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